sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Morangos

Se é para falar de Caio Fernando Abreu nada melhor que um trecho de um conto dele que me atingiu em cheio. Natureza Viva consegue surpreender na maneira coloquial-reflexiva com que se apresenta. Deixando que sua personagem salte das páginas apressadamente escritas e me encontre numa esquina qualquer, numa noite qualquer de extrema melancolia. Já encontrei a minha Clarice Lispector...

Ah: fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro o cheiro preciso dele.

(Natureza Viva, Caio Fernando Abreu)

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